segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O que o (des) governo Dilma e Richa tem em comum?

      















      Tudo. Exatamente. Os últimos 4 anos de Dilma Rousseff na presidência acelerou aquilo que inúmeros intelectuais de esquerda já haviam apontado a muito tempo: a falência das políticas e da administração petista. Os 8 anos de Lula não escapam dessa definição. Ele deve dar graças ao bom momento vivido pela economia nacional entre 2002 e 2010, num contexto de retração dos mercados internacionais. Parcelas consideráveis de trabalhadores, inclusive eu, navegou tranquilamente na esperança de tempos melhores. Ao fim e ao cabo, as recentes atitudes da chefe da nação escancaram o caráter de classe do lulo-petismo. Não adianta de nada vir contestar que o PT estimulou o PROUNI, o Minha Casa Minha Vida, o PRONATEC, etc, etc, etc. Se fossemos discutir a dinâmica de cada um desses programas ao máximo veremos o que eles representam aos grandes monopólios brasileiros (bancos, empreiteras, conglomerados econômicos). No campo da educação, por exemplo, grandes conglomerados como a Estácio, a Kroton e outras mega empresas já sentiram o despencar das ações, fruto das recentes medidas do governo em relação ao FIES. A palavra mais comentada na última campanha de Dilma foi PRONATEC. Afinal, na perspectiva dos trabalhadores, isso talvez tenha sido a única coisa boa do PT. 
     
       Como um governo que se auto denomina progressista consegue atuar tendo como aliados o PMDB, Kátia Abreu, Joaquim Levy, Calheiros e, graças a Deus o já aposentado e defensor da ditadura José Sarney? As recentes medidas de austeridade e ajuste fiscal do "coração valente", tem ameaçado o verdadeiro CORAÇÃO VALENTE: o coração do trabalhador. Não será de estranhar se daqui a algum tempo aumentar os indíces de infarto. Não tem como aguentar as altas de preços, a elevação da taxa tributária, o peleguismo da CUT, etc. O (des) governo do PT é de direita. Nem de centro, nem de esquerda. No começo de 2011 ou final de 2010, não me recordo, fui num evento com o grande Plinio de Arruda Sampaio em que ele afirmava: o PT traz em seu bojo uma política de direita. Em pleno processo de aquecimento do mercado interno a base de empréstimos e juros, com uma euforia interna medonha, parecia desconjuntural tal afirmação. Hoje percebemos como ela faz todo sentido.

      Se no plano nacional, temos acompanhado com pesar tais infortúnios, aqui no estado do Paraná temos presenciado um massacre direto do (des) governo do PSDB. Richa tem tomado medidas que já imaginávamos: enxugamento da máquina e culpabilização da União. Ele vive falando que não recebe repasses do governo federal. Nada mais tosco quando sabemos que isso é determinado por Lei e seu descumprimento acarreta severos problemas. Richa vai privatizar meio mundo, assim como Dilma vem fazendo, As richas internas entre PT e PSDB, aos olhos do agudo cientista, não ocultam o que eles tem em comum dentro da dinâmica da economia neoliberal. O abuso escancarado nos serviços públicos, o não pagamento dos trabalhadores da educação, o aumento das tarifas de transporte tem caracterizado um governo centralizador e autoritário. No que tange a educação vale destacar o peleguismo da APP-Sindicato em nível regional, muito semelhante a sua irmã siamesa, a CUT. Já indiquei em outros textos, como nosso sindicato gosta de visitara ALEP, mas é pouco frequentador das ruas. Nosso sindicato HOJE, tem medo das ruas. Abortou uma greve poderosa ano passado e hoje amarga o rancor da categoria.

       Sem papas na língua: PT e PSDB representam duas caras de uma mesma moeda. O presidencialismo de coalizão já uniu esses partidos em vários estados da Federação. Não adianta ficar fazendo campanha pro PT aqui no estado, tendo como justificativa "dos males, o menor". Esse mesmo slogan foi utilizado no embate Neves/Dilma. Basta analisar os primeiros suspiros do segundo mandato de Dilma para entender bem o retrocesso de tal afirmação. Nosso lugar precisa ser o da oposição. Veja na Grécia e Espanha. A classe trabalhadora está nas ruas e conquistou uma vitória importante com o Syriza. 

         Quer fazer a crítica ao Richa? Não esqueça da Dilma...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Quando a violência se torna um problema político e ambiental?


    O texto do professor e filósofo Jefferson Moraes, publicado em seu blog (http://afasiamoral.blogspot.com.br/) aborda um fenômeno que, como muito bem definido no começo de “O ódio e a violência são problemas estritamente político/ambientais?” foi e continua sendo “desafiador para a compreensão humana”. Não sem razão, debruçaram-se sobre ele vários pensadores e intelectuais como Hegel, Marx e Nietzsche e mais precisamente na atualidade o polêmico e baderneiro filósofo esloveno Slavoj Žižek.

          Nosso objetivo aqui é contribuir para o debate em torno dessa temática tão atual, cuja discussão mais numerosa e densa ganhou força apenas a partir da década de 1980 (ver. http://rbhcs.com/index_arquivos/Artigo.Refletindo%20sobre%20a%20viol%C3%AAncia.pdf ). Por isso, estamos longe de propor uma análise metódica e detalhada sobre o processo da violência, até porque sobre isso existem várias obras disponíveis. Esse espaço reúne espasmos de pensamento que pretendem abordar a violência desde a perspectiva social e política.

         Que a violência existe desde o mais remoto registro material de atividade humana não resta dúvida. O mundo natural, hostil e porque não desconhecido, impunha ao homo sapiens a produção de violência em escala absurda para sobreviver. Mas o homem foi se organizando de acordo com as demandas que o meio lhe impunha. Friedrich Engels, no fantástico livro A Origem da família, da propriedade privada e do Estado aponta que a civilização é um dso estágios da sociedade caracterizado sobretudo por três questões que causaram uma revolução na organização política e econômica: divisão do trabalho, troca entre indivíduos e a produção mercantil. A apropriação individual de mercadorias e a consequente acumulação primitiva fazem surgir formas de relações sociais diferenciadas: é a capacidade de organização do homem posta a prova. O que concedia coesão ao todo social, ao grupo de homens na dita “sociedade civilizada” era o Estado. Por isso, afirma Engels: “A força de coesão da sociedade civilizada é o Estado, que, em todos os períodos típicos, é exclusivamente o Estado da classe dominante e, de qualquer modo, essencialmente uma máquina destinada a reprimir a classe oprimida e explorada” (199). As transformações históricas, reconhecidas as múltiplas variedades sociais e políticas (organização do poder, divisão social, etc) apresentam em comum esse Estado hegemônico, não um monstro externo, mas um ser criado no seio das relações sociais.

           Os Estados do pós Renascimento, como escreve Max Weber no A política como vocação fazem o uso do monopólio da violência. Processo, diga-se de passagem legitimamente reconhecido e autorizado. O Estado Moderno e soberano, portanto, produz violência já que sua ação coercitiva, apesar de ser legitimada, causa estranhamento nos indivíduos na medida em que representa interesses de setores dominantes da sociedade.

             Por isso, a frase: “(...) Isto é, utilizando como auxílio o reconhecimento dos altos índices de violência nos grandes centros urbanos, podemos afirmar que a violência representa uma resposta social hostil daqueles indivíduos que não aceitam as demandas organizacionais vigentes e, portanto, tal problema depende de uma equiparação ou inversão desses interesses?” esquece de apontar a violência institucionalizada e material proposta pelas classes dominantes via Estado. A violência que temos é a do oprimido, nunca a do opressor.

             Está longe, mas muito longe do interesse desse texto negar as contribuições fantásticas que a neurociência, a psicologia evolutiva e a sócio-biologia tem apresentado. Mas, a demanda da violência não pode ser pensada a-historicamente. Isso significa que o Estado enquanto catalizador e pulverizador da violência representa interesses privados. A violência, como afirma Žižek precisa ser desfetichizada (ver https://www.youtube.com/watch?v=29YFfKZD1B0 ). Isso significa pensar a violência para além da reação do oprimido. A violência do Estado é acima de tudo material (expressa-se por exemplo na atuação da polícia nas muitas favelas do Rio de Janeiro), mas também simbólica e invisível. A essas duas últimas estamos tão adestrados que nem notamos. A própria democracia burguesa atual é uma violência. Por isso, o consenso será sempre: qualquer mudança de ordem significa necessariamente violência. Nas palavras de Marx, a violência é parteira do novo. Essa violência não institucionalizada é criminalizada. A do Estado legalizada. Seus excessos justificados debaixo do discurso de manutenção da ordem.


         Por isso, assim como Žižek sou a favor da violência! Mas da violência que deslegitima o legítimo. A violência, assim como a história precisa ser pensada também no campo das ideias. Isso significa que deve-se lutar pela construção histórica de um conceito de violência que atenda as demandas da transformação social. Por isso, a criativa e instigante pergunta formulada pelo professor Jefferson ( “Entretanto, será que a solução para amenizar a violência entre os partícipes de uma determinada comunidade reside na melhor organização social e política como as teorias ambientais propõem?”), pensada no contexto que aqui tentei desenvolver já tinha sido respondida pelo próprio Engels: “Com o desaparecimento das classes, desaparecerá inevitavelmente o Estado. A sociedade, reorganizando de uma forma nova a produção, na base de uma associação livre de produtores iguais, mandará toda a máquina do Estado para o lugar que lhe a de corresponder: o museu de antiguidades, a lado da roca de fiar e do machado de bronze.” (196). A violência vai desaparecer? Longe de mim afirmar uma besteira desse tamanho. Mas como ela precisa ser pensada também por um viés histórico, podemos ao menos pensar que muita coisa vai mudar. E por que não os índices de violência?

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Relembremos do 29 de abril de 2014!

       Ontem, dia 4 de novembro de 2014, nas dependência do Poder Legislativo do Estado do Paraná, professores foram agredidos pelos seguranças da Casa, sob ordens do líder da mesma, o deputado estadual (que agora, infelizmente,é federal) Valdir Rossoni. Um episódio lamentável e grotesco que escancara as relações ditatoriais estabelecidas na ALEP, cuja maioria faz parte da base tucana.
       Em primeiro lugar, é preciso entender o que estava em pauta ontem: a recondução, por mais um ano, das atuais gestões de diretores das escolas públicas do estado do Paraná. Ou seja, as quase 2200 escolas que já estavam em PROCESSO ELEITORAL terão que abortar suas comissões consultivas e regionais em nome de uma ordem golpista e autoritária vinda diretamente do exímio (des) governador do estado. O deputado Luiz Romanelli (PMDB) foi quem tratou de encaminhar o projeto para a votação na Câmara dos Deputados. Vale lembrar que ele já havia sido aprovado na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), faltando apenas passar pelo Legislativo e depois ir para o gabinete do Beto Richa. Não pretendo comentar profundamente o caráter anti-democrático do documento, completamente inconstitucional e que representava os setores mais podres da política e das últimas eleições para governador. Esse último, ao colocar em pauta e na ordem do dia a prorrogação dos mandatos de diretores por mais um ano tentou atender aos interesses dos vários, para não dizer da maioria, dos diretores de escolas que fizeram campanha aberta e velada em favor do candidato do PSDB. Um velho "toma lá dá cá" que remonta ao coronelismo, como bem elencou em seu texto "Nuâncias coronelísticas" o professor André (ver. http://professor-andre-rockstar.blogspot.com.br/2014/10/nuancias-coronelisticas-na-seed-pr.html).
      O que me preocupa de verdade é a força da APP sindicato. Ela esteve, via seus representantes e sindicalizados, presente todos os dias da semana, desde que o projeto ameaçou chegar a Casa. Esses representantes, na sua maioria da liderança, mas também os da oposição ligados ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) gritaram palavras de ordem e acusavam, corretamente, de golpismo os deputados que votavam a favor. Vários vídeos apresentam o momento em que Rossoni ordena aos seguranças que retirem os "elementos" que ocasionavam a arruaça (ver. https://www.youtube.com/watch?v=xJbCtKBPkrQ; http://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2014/11/votacao-de-projeto-polemico-termina-em-confusao-nas-galerias-da-alep.html ). A partir daí vimos um espetáculo de violência típico dos tempos da ditadura.
      A APP sindicato perdeu mais uma vez e só vem perdendo nos últimos meses. Por que? A perda de expressividade da APP já dura muito tempo. Os velhos companheiros sindicalizados contam histórias de resistência que tem como cenário as ruas. Hoje, a APP trocou de espaço: saiu das ruas para ir a mesa de cafezinho do governador. É lá que ela faz política. Os gritinhos de histeria da liderança do sindicato na ALEP representava uma verdade que todos sabiam: o projeto iria passar. A APP perdeu o controle e a confiança da categoria principalmente, quando na terça feira, dia 29 de abril, suspendeu uma greve forte e poderosa. Uma greve que tinha levado quase 30 mil às ruas. Uma greve que enchia de esperança o coração dos mais jovens como eu. Uma greve covardemente abortada pela liderança. Agora, a APP colhe os frutos e vem coisa pior por aí. De nada adianta entrar com pedidos disso e daquilo porque os porões da política são escuros demais. Se a APP realmente quissese que as eleições para diretores caminhasse democraticamente hoje convocaria greve geral em todas as escolas. Mas ela sabe que não tem poder mais para isso.
       Longe de mim machar a história da APP, que começou com luta e nas ruas. Agora, longe de mim não problematizar o que esse sindicato representa hoje.
       Se os professores, ligados a oposição à liderança apanharam ontem, a culpa é do Richa. Mas da APP também! Que tem adotado um método de resolver problemas que todos sabemos ser desleal para com os integrantes da categoria. Ou a APP volta pra rua e só saí quando as pautas forem realmente atendidas, ou continuaremos vendo professores apanhando.

domingo, 2 de novembro de 2014

Beijinho no ombro pro seu "IMPITIMAN"!

   Não nos enganemos. Os movimentos que ocorreram ontem, dia 1º de novembro em algumas cidades do Brasil e que reuniram um número pífio de pessoas (muitas das quais com cartazes com erros absurdos de português) tem um ponto em comum: o reacionarismo e o anti-petismo. Os participantes alegam ter pautas diversas: alguns queriam melhorias na educação, saúde, transporte e serviços públicos; outros ansiavam pela saída do PT, envolvido em vários escandâlos. Até aqui tudo bem. Dentro da legalidade da democracia burguesa que apresentou uma corrida eleitoral-presidencial extremamente competitiva e acirrada. 
    Mas, existia uma outra pauta por trás desse processo: o golpe militar. Essa pauta existe desde os tempos da redemocratização e representa os setores mais conservadores da sociedade brasileira, hoje representados por Lobão, Bolsonaro, Feliciano e outras personalidades que dariam uma lista gigantesca. Nos últimos cinco anos essa ideia tem ganhado um corpo social jamais visto. Saiu de seu lugar cavernoso, os círculos reservados do conservadorismo, para ganhar espaço público. E quando ganha esse espaço confirma a tese de que o golpe militar de 1964 não foi apenas militar, mas envolveu também setores da sociedade civil. Tal dinâmica é fruto de algumas questões, que pretendo abordar rapidamente:
    1) Fraqueza da Comissão Naciona da Verdade (CNV): a luta por condenar os envolvidos em crimes durante a ditadura no Brasil caminha a passos de tartaruga. Enquanto na Argentina, semana passada, quinze envolvidos com torturas durante a ditadura foram condenados (ver http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2014-10-25/justica-argentina-condena-15-a-prisao-perpetua-por-tortura-e-mortes-na-ditadura.html), no Brasil ainda patinamos em construir uma memória sobre os 21 anos mais obscuros de nossa história;
    2) Desilusão com a política: aqui aparece a juventude. Enquanto docente de História e Sociologia tenho acompanhado de perto essa realidade. Existe um sentimento de despolitização jamais visto. Os partidos, instituições e movimentos estão completamente desgastados. Tudo é corrupção! Esse pensamento apresenta certa coerência, mas também riscos enormes. A possibilidade de se deixar levar e trilhar um caminho "à direita", marcado pela xenofobia, racismo, preconceito escancara-se com a dura realidade nacional. Por enquanto, o número de manifestantes pró-direita continua pífio, mas daqui alguns anos, o que teremos? (ver http://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilhermeboulos/2014/10/1529543-onda-conservadora.shtml)
   3) O PT tem culpa sim! O PT não é o responsável por esse processo. Ligar a história da corrupção a um partido é reduzir todo um processo que interliga umbilicalmente todo poder político e econômico do nosso país desde o processo da colonização. Mas, o PT, com seu discurso de combater a corrupção, caí numa armadilha sem fim quando, por exemplo, Lula, Malluf e Haddad aparecem numa foto juntos. As alianças que o PT tem feito desmoralizam ainda mais as organizações políticas e partidárias. Você, tucano, que está lendo isso, não se sinta escusado e tire esse risinho de deboche da cara e vá ler Privataria Tucana de Amaury Ribeiro Jr.
   4) A esquerda tem medo de dizer seu nome: Vladimir Saflate, professor de filosofia da USP escreveu uma importante obra "A esquerda que não teme dizer seu nome"(2012). Nesse livro o autor procura "reafirmar os princípios que orientam historicamente o pensamento da esquerda e renová-los, a partir das demandas da época". Falta, para a esquerda nacional uma unificação de pautas, que deve começar pelo combate direto e irrestrito a manifestações como as de ontem. A esquerda precisa repensar os problemas de sua época e investir em táticas e estratégias de superação do capital. Isso significa sair das universidades e alcançar novos espaços sociais.

   Por fim, indico para você que foi ontem as ruas e que compactuou com golpistas e militares, que assista pelo menos um dos 11 filmes listados abaixo:


Sem mais, só me resta dizer: beijinho no ombro pro seu impeachment!

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Bolsa Família não é osso para andar na boca de cachorro

     As eleições se encerraram no último domingo, mas a política continua. Continua porque, como diria Hannah Arendt ela é a pluralidade entre os homens. Pretendo apresentar um breve balance do que tenho visto e presenciado nos últimos dias tanto nas redes sociais quanto no contato direto com colegas, companheiros de trabalhos e conhecidos de outras instâncias.
       A sensação é, sobretudo, desesperadora. Inúmeros argumentos esdrúxulos e desconexos tem sido utilizados livremente para assegurar a perpetuação da exploração e da discriminação. Li em vários perfis de amigos virtuais, muitos dos quais devidamente excluídos por suas declarações xenófobas, que o Bolsa Família é um programa criado pelo governo PT para sustentar os pobres. Pretendo aqui elencar alguns pontos e desconstruir essa ideia, dentro de uma perspectiva também crítica. Em primeiro lugar é importante que fique claro que fui beneficiário desse programa e sei muito bem o que significou. Em segundo lugar destaco que não tenho simpatia alguma pelo PT, nem sua condução política, social e econômica-nítidamente em moldes neoliberais. O PT de hoje está completamente distante daquele da década de 1980 e que representava um momento de esperança para a classe trabalhadora brasileira, aglutinando vários setores progressistas e construindo núcleos de atuação. Para entender a transformação do PT nas últimas décadas ver o dossiê disponível no site (http://marxismo21.org/10-anos-de-governos-do-pt-natureza-de-classes-e-neoliberalismo/)
     Mas voltemos ao Bolsa Família. Vejamos duas frases comumente lidas nas redes sociais:
     1) "O bolsa família sustenta vagabundo": essa frase é espalhada por pessoas que acreditam piamente que "o trabalho dignifica o homem".Conforme dados disponibilizados no site do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), mais de 70% dos beneficiados com esse programa trabalham! Mas, se trabalham, porque precisam de renda extra? Porque a renda que ganham lhes oferece condições de atender as demandas mínimas de sobrevivência digna. Ou seja, falta alimento, material escolar, roupa e condições mínimas de moradia. O Bolsa Família atende famílias com renda per capita inferior a R$70 reais! Você já experimentou viver com esse valor? Se não, tente.
   2) "A classe média, com seus impostos é que sustenta esse programa": indico, antes de qualquer coisa a leitura do texto publicado na Gazeta do Povo (http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/caixa-zero/quanto-o-bolsa-familia-custa-para-o-seu-bolso/). A União investe 24 bilhões por ano com esse programa e do nosso bolso não saí R$ 5 reais. Aí eu pergunto: reclama dos 24 bi, mas e os 1,7 trilhões para as amortizações da dívida pública? Só para te dar calafrios, a dívida interna atual, conforme exposto pelo site Auditoria Cidadã (http://www.auditoriacidada.org.br/) é de quase 3 trilhões e a externa de 485 bilhões.
O Bolsa Família é um bom programa a curto prazo, mas a longo prazo, como bem defendeu Isabel Grassiolili, em sua dissertação de mestrado (http://tede.unioeste.br/tede/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1215), ele transforma a "riqueza passiva, vista como um problema social em pobreza ativa para o capital". Com o capital circulado a economia se aquece e a acumulação capitalista se mantém a todo tom. A contradição do bolsa família (ao mesmo tempo que insere parcelas consideráveis do subproletariado no mercado de trabalho, mantém a dinâmica econômica do capital ativa) não deve servir de osso na boca de cachorro. O fim da miséria implica necessariamente o fim dos desmandos do capital. Ou, o aprofundamento constante das políticas públicas. E convenhamos, o governo do PT está bem distante disso. Enquanto isso não acontece, você, que viaja para o Nordeste nas férias, tem carro parcelado em 36 vezes e a casa financiada precisa desenvolver melhor sua humanidade.

Em tempo: se você "cresceu na vida sem bolsa família", parabéns. Parabéns também e você precisou burlar vários impostos para conseguir isso.